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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Sobre os visuais dos Kamen Riders



Desta vez vou discorrer um pouco sobre os visuais dos Kamen Riders, baseado em leituras que fiz de vários materiais, como entrevistas e depoimentos de pessoal envolvido na produção.



Desde o ano 2000, quando a franquia Kamen Rider voltou, surgem novos heróis todo ano. E o visual é o aspecto que mais chama a atenção, se tornando motivo de discussão entre os espectadores. Muitos desses são espalhafatosos, e à primeira vista parecem até ridículos ou cafonas. E isso é um elemento que se torna um desafio para as equipes de criação.

Yasuko Kobayashi, roteirista e um dos grandes nomes do ramo, conta que o desenho do cinto e os mecanismos são ideia da fabricante de brinquedos, mas só isso, sem nenhuma história ou nota de produção. É a partir daí que se discute como serão a história, os personagens e qual o contexto em que o cinto será usado. 

Gen Urobuchi conta que teve problemas com os visuais de Kamen Rider Gaim, baseados em frutas. Para Urobuchi, o grande diferencial de Kamen Rider de outros heróis é o fato deles usarem os poderes do mal para fazerem o bem. E que mal poderia haver em frutas? Nessa ele utilizou os conceitos do Fruto Proibido e teve sucesso em encaixar o elemento das frutas no contexto. Os sons teriam sido devido aos gostos do insano Ryoma Sengoku. 

Riders da Nova Geração

Por muito tempo pensei que os visuais dos heróis eram feitos exclusivamente pela Bandai, mas não é bem assim. É certo que os Super Sentai são desenhados pela empresa Kikakusha 104, mas no caso dos Kamen Riders, isso ainda é feito por gente da Ishimori Production e refinados pela PLEX, empresa de designs subsidiária da Bandai.

Um dos desenhistas da Ishimori Production é Masato Hayase, que foi assistente do grande mestre desenhista Shotaro Ishinomori. Ele é creditado como desenhista de personagens, responsável pelos designs de vários Riders da Nova Geração (Agito a OOO, com exceção de Blade) e conta uma história interessante da época de Kamen Rider J. Hayase havia gostado dos visuais e conceitos do filme anterior, Kamen Rider ZO, que seguiam fielmente a fórmula básica do Kamen Rider. Mas ao ver J, achou estranho o aspecto fantasioso da obra, assim como o design, e levou essas críticas a Ishinomori. Para sua surpresa, o Mestre respondeu que foi ele quem disse para fazer assim, pois queria algo que que não ficasse preso ao primeiro Kamen Rider. Foi com essa premissa que Hayase passou a desenhar os Riders da Nova Geração.

Hayase descreve o Mestre como alguém que primeiro imaginava algo inumano, bizarro, grotesco ao criar seus personagens. Especialmente na posição dos olhos, que chegavam às bochechas. Hayase conta que tentou imitar esse aspecto nos visuais de vários Riders, mas nunca conseguiu, pois sempre pensava em uma forma humana e não conseguia se libertar disso. Hayase também diz que Ishinomori era capaz de transformar qualquer coisa em super herói. Por exemplo, Kikaider foi feito baseado em um modelo de anatomia usado em aulas de ciências em escolas do Japão. Como ele associou isso a uma história de amor, só o próprio Mestre sabe.

Outro ponto era que o Mestre tentava não se repetir. Por exemplo, ao criar o Kamen Rider V3, ele fez a máscara com uma divisória na vertical, ao invés de na horizontal como no primeiro Kamen Rider. E o esquema de cores seria o inverso (máscara verde e olhos vermelhos no Nº 1 e máscara vermelha com olhos verdes no V3). Kikaider também usou algo nesse sentido, sendo que o Herói tinha uma linha divisória na vertical e seu rival, Hakaider, teria várias divisórias na horizontal. Esses eram aspectos que Hayase admite nunca ter notado quando era apenas um leitor, mas foi aí que ele viu que Ishinomori era um Gênio.

Outros Heróis de Shotaro Ishinomori

Hideki Tajima, desenhista de personagens dos Riders desde Kamen Rider Kiva, em que trabalhou com Masato Hayase e desde Kamen Rider Fourze se tornou o desenhista principal, conta mais detalhes do processo de criação dos heróis em uma entrevista. Segundo ele, os desenhos não são feitos por uma só pessoa, mas por várias. Pessoal da Toei, da Bandai e da Ishimori Production se reúne e discute sobre como deve e como não deve ser feito. É um processo bastante exaustivo visto que a grande premissa seria a de não repetir ideias. Os designs também tinham que ter impacto, serem marcantes, originais, capazes de ser motivo de discussão. Pois esse seria o primeiro aspecto a ser notado ao se anunciar um novo herói, que deveria ficar na memória logo de cara.

Isso seria devido a influência de Shotaro Ishinomori, que também fazia visuais extravagantes para heróis da televisão. Ishinomori é conhecido como alguém que gostava de novidades e que detestava ficar preso a conceitos pré definidos. Um exemplo famoso de seu gosto por coisas novas é uma vez em que o Mestre gastou todo o dinheiro que ele ganhou com um de seus trabalhos, Hinotori Kazetarou (1957), para comprar um aparelho de som estéreo Hi-Fi de último tipo (ao menos na época). Ishinomori também via muitos filmes e revistas sobre ciência e tecnologia a fim de sorver ideias para suas criações. E uma de suas políticas era a de nunca se repetir. Ele sempre buscava novas inspirações, novas surpresas, querendo sair do status quo.

Isso pode ser visto em um depoimento do produtor Tohru Hirayama, que em sua autobiografia  conta que durante as filmagens de Gorenger, ficou perplexo com os desenhos de alguns dos inimigos, os Monstros Mascarados. Os visuais eram aberrantes, beirando o ridículo e o produtor questionou Ishinomori, perguntando se ele não estava exagerando. O Mestre respondeu que fez isso para que houvesse mudanças e assim era necessário cometer ousadias. E Masato Hayase conta que a grande "desculpa" que o Mestre dava ao ser questionado era "está bom assim mesmo".

Kikansha Kamen, o Monstro Mascarado que fez Tohru Hirayama ficar perplexo.

Tajima então faz os designs seguindo essas diretivas, de sempre inovar, criar algo que cause surpresa aos espectadores. Pois segundo ele, aqueles que seguem o espírito de Shotaro Ishinomori devem sempre experimentar fazer coisas novas. Apesar de nunca ter conseguido falar com o Mestre em vida, ele conta que ouve a sua voz lhe dizendo para ousar mais, criar algo mais interessante, espalhafatoso. E ele faz isso pois não ia querer que Ishinomori lhe dissesse "olha aí você se repetindo de novo".

E Tajima cometeu a maior ousadia de todas em Fourze ao não dar ao Herói as "linhas de lágrimas" características dos Kamen Riders de até então. O desenhista compreende que aquelas linhas estavam lá para representar a tristeza do Herói ao ter que lutar com seres iguais a ele. Mas Fourze foi feito para trazer de volta a alegria a todos os japoneses, que sofriam com as consequências do Grande Terremoto de 2011. Por isso, um Herói não podia chorar naquela ocasião e assim se decidiu acabar com essas linhas. É difícil dizer agora se Ishinomori o repreenderia por ter removido uma de suas marcas registradas ou se o parabenizaria por ter ido tão longe.

Fourze não tem as "linhas de lágrimas" por baixo dos olhos.

Para Shotaro Ishinomori, um herói não podia ser "elegante". Tanto que ele rejeitou o design do Cross Fire, que havia sido prontamente aprovado pelos executivos da Toei, pois queria algo mais "real", mais grotesco. Para isso ele propôs o Skull Man e depois o Kamen Rider Hopperking, que mais tarde se tornou simplesmente o Kamen Rider. A máscara de gafanhoto era medonha, conforme conta Tohru Hirayama, que no começo estava descrente e todos achavam que a série ia ser um fracasso. No fim não foi e acabou se tornando um clássico.

Cross Fire, visual rejeitado pelo Mestre.
Skullman, visual rejeitado pelos executivos da Toei

Todos os anos, quando um novo Rider é mostrado ao mundo, as reações são as mesmas: perplexidade, descrença, às vezes até repulsa ou desdém. Ainda assim pude ver que as equipes têm algo em mente ao criá-los. E quando o herói se move e a história se revela, é mostrado que o visual pode enganar e algo que parece bobo e/ou estranho se revela mais complexo do que parecia. Assim a história do primeiro Kamen Rider se repete…

8 comentários:

  1. Fala, Mr. Usys!

    Que post interessante e oportuno! Afinal, nesta semana o Japão está relembrando os 80 anos de nascimento (25/01) e 20 de falecimento (28/01) de um dos maiores gênios do entretenimento no país.

    E graças à sua postagem fiquei sabendo que a Ishimori Pro ainda faz designs para Kamen Rider, coisa que eu nem desconfiava. E é ótimo saber que as novas gerações se inspiram em ensinamentos do mestre. Acho que isso é o que tem mantido a integridade do trabalho. Podemos ficar horas, dias conversando sobre a influência de Ishinomori na cultura pop japonesa (e mundial, afinal Power Rangers é derivado de Super Sentai) que mesmo assim o assunto não vai se esgotar.

    Falou! Grande abraço!!

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    1. Obrigado, Nagado!

      Faz um tempão que eu estava montando esta matéria e era para ser lançada junto com a apresentação da S.H. Figuarts do Ex-Aid. Mas não tinha todos os materiais e acabei deixando de lado. Quando terminei, não sabia quando publicar. Daí soube do aniversário do Mestre e vi que tinha chegado a hora.

      É incrível como a gente sempre acaba descobrindo algo que era o contrário do que a gente imaginava. Eu jurava de pés juntos que a Bandai entrava com o desenho dos heróis, mas não era isso. Havia participação da Ishimori Pro afinal.

      Uma coisa que me chamou a atenção é que todos eles falam de como é impossível imitar o Mestre. Por mais que eles saibam a teoria, não dá para fazer algo igual. Mesmo assim eles tentam manter o espírito de tentar algo novo. Pena que muitas vezes isso não é compreendido.

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  2. Muita coisa ficou clara agora, com as coisas sem sentido dos riders mais atuais. Não é so sandisse dos criadores ou olho grande dos fabricantes de brinquedo. Nem que as séries ficaram mais infantis. Obrigado pelas informações! Ótimo texto

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    1. Obrigado, Gustavo!

      O que acho mais interessante é que isso de causar discussão também é planejado. Ou seja, todos nós (auto-intitulados) especialistas/críticos/sabe-tudo não passamos de Son Goku dançando na palma de Buda. Achamos que somos inteligentes/espertos, só que no fim estamos todos fazendo o jogo da Toei e da Bandai.

      Ao menos eles trazem histórias legais e conceitos criativos. No fim, acho que ganha aquele que consegue ver isso e se diverte. Isso também pode ser parte do plano deles, mas ao menos assim dá para sair ganhando com alguma coisa.

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  3. Matéria bem interessante! Gosto muito desas histórias por trás dos conceitos, é legal ver como funciona a cabeça do pessoal que está por trás dessas obras que são tão importantes para muita gente, e como algumas vezes ad ideias deles são muito diferentes do que a gente pensava. E os caras pensam em tudo, pois ao gerar discussões eles mantêm as séries em destaque na boca do povo!

    Mesmo eu que não costumo assistir as séries Kamen Rider sempre fico interessado pelos visuais, que são bem diferentes do convencional. Nas histórias contadas nos seus reviews já dava para ter uma boa ideia de como a galera se empenha nesses visuais, mas agora dá pra ver que isso envolve ainda mais gente do que parece, é um baita processo criativo. Deve ser muito difícil ter que criar algo sabendo que milhares de pessoas têm grandes expectativas por esse trabalho.

    O visual do Crossfire me lembrou um pouquinho o Casshern! Ah, e esse Skullman é a grande inspiração por trás do Skullomania de Street Fighter EX (agora Fighting EX Layer)! Eu já tinha ouvido falar mas nunca tinha visto imagem dele. Agora dá pra ver que o Skullomania é praticamente idêntico ao seu muso hehehe!

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    1. Obrigado, Ronin!

      Essa é para a gente ver que o pessoal pensa em tudo e nada é aleatório ou algum surto de insanidade (embora não tenha certeza em relação ao Shotaro Ishinomori; existe uma linha tênue entre o gênio e o louco). E também que não é uma coisa fácil. É preciso saber quando é hora de ousar ou quando é preciso frear.

      Eu tenho certeza absoluta de que o Skullomania é baseado no Skullman, embora a risada dele me lembre também o Fantomas. Ele tem até o cinto e o cachecol! Tanto na Capcom quanto na SNK tinha gente que era fã de tokusatsu. E provavelmente havia quem soubesse dessa do Skullman.

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  4. Nobre Usys!

    Que matéria incrível! Tenho acompanhado seus reviews e fico admirado com as informações e curiosidades das séries, principalmente as que tem os Kamen Riders, tanto que comecei a ver o Amazons e esta semana iniciei o Ex Aid - e te pergunto: como é que para?!

    Ishinomori trabalhou muito bem! Curti essa ideia dele e muitas vez a sigo - essa de fugir dos padrões e sempre inovar! Quando comecei a desenhar, copiava bastante os outros, até que desenvolvi meu próprio estilo e não curto copiar mais nada, apenas pego referências. Essa daí deu certinho com os Kamen Riders. O que pega aqui no Brasil é que muita gente se prende ao Kamen Rider Black e o RX - e eu era um desses!

    Após pegar as dicas nos reviews na Casa do Boneco Mecânico, fiquei interessado nas histórias. Ao ver os anúncios do Ex Aid, assumo que achei ridículos e desinteressantes, mas a Casa e o Toku Doc me fizeram mudar de ideia, até começar a ver! Tô assistindo com o Super Oliver e tô curtindo aquele monte de cores e efeitos de games! O Amazons ficou meio encostado por ter episódios mais longos e tensos, enquanto as historinhas do Ex Aid são curtas e se resolvem em um ou dois episódios!

    Falaria mais, mas acabaria se tornando um super texto! Até a próxima!

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    1. Obrigado, Adelmo!

      O único jeito de parar com Ex-Aid é indo até o capítulo 45 e... Ah, não! Tem ainda os especiais de cinema, os episódios 0 com o Snipe e os especiais... Bom! O negócio é curtir! Nesse seriado a criatividade rola solta e o último capítulo em especial tem uma cena de luta épica, como nunca se viu e ninguém esperava! E apesar de leve, a história é muito bem pensada, com as peças se encaixando direitinho.

      Realmente o negócio é ter o próprio estilo. É a lição não só do Grande Mestre Ishinomori, como também do Akira Inagami e do Yoshihiko Umakoshi, que só fizeram sucesso ao descobrirem o que é característico deles mesmos. Mas a maior mensagem de Ishinomori é a de ousar. Quebrar paradigmas. Fazer algo que ninguém nunca fez e descobrir novas possibilidades. Tanto que sua obra é tão vasta que engloba além de Super Heróis, histórias do cotidiano e comédia. Se bem que ele é um Gênio e isso é algo que não se copia.

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